NESTA edição reparto o espaço da Coluna com um gratificante e inteligente texto do ENIO FETT DE MAGALHÃES, abordando o 1º ano do passamento do Coronel SÉRGIO SPARTA:
No dia 17 de novembro do ano passado, liguei para uma floricultura em frente ao cemitério municipal de Santo Ângelo. Meu propósito era encomendar uma coroa de flores para homenagear o SÉRGIO, meu primo-irmão, que falecera prematuramente no dia anterior em Capão da Canoa, litoral do RS. “Esse era grande! ”, comentou ao telefone a moça que me atendeu, ao ver o ajuntamento de pessoas que iriam acompanhar o sepultamento. Também estava lá um grupo de soldados escolhidos para prestar a última homenagem ao chefe militar que partira. Completando as honrarias, o prefeito municipal decretou luto oficial por três dias.
O coronel SÉRGIO FETT SPARTA DE SOUZA era filho do general médico do Exército ORLANDO SPARTA DE SOUZA e da Da. LIA FETT SPARTA DE SOUZA, figuras muito conhecidas e grandes beneméritas da cidade. O Dr. SPARTA foi um dos construtores do Hospital Santo Ângelo e vereador por várias legislaturas. Da. LIA, de temperamento empreendedor, foi ativa na assistência social, realizando várias obras em benefício da população carente, inclusive a construção do POPSA, uma escola profissional, com recursos vindos da Alemanha. Pela sua atuação profícua e incansável, foi homenageada várias vezes pela Legião Brasileira de Assistência, a antiga LBA.
SÉRGIO foi um guri incomum. Quando chegávamos para passar as férias de verão na casa dos nossos avós, Alfredo e Blan-ca, era ele o portador das novidades. Sabia onde eram os melhores lugares para nadar no rio Taquarichim, o galho do chorão que servia de trampolim, onde pescar jundiá e lambari e onde cortar taquara para improvisar os caniços de pesca. No grande pasto que separava a casa dos nossos avós do Frigorífico (antigo Frigorífico Santo Ângelo) , montava a cavalo em pelo, sempre com muita desenvoltura. Era corajoso e líder nato, um exemplo para a gurizada.
Conhecia como ninguém as instalações do Frigorífico dirigido pelo nosso avô, Alfre-do Fett, que servia de um imenso parque de diversões para nós todos, primos e amigos. Lembro da carpintaria do Stanislaw, onde aproveitávamos sobras de madeira para fazer brinquedos; a oficina de solda do pai do Nélio, um amigo, onde arranjávamos chumbo para as linhas de pesca; os grandes depósitos de carnes processadas esperando embarque para a Europa, por onde corríamos em seus pisos impecavelmente lustrados; a enorme caixa d’água do sistema de refrigeração do Frigorífico, onde subíamos nas serpentinas abaixo do reservatório para desfrutar da água gelada nas tardes quentes de verão; as altas alamedas de toras de madeira embaixo de uma fileira de plátanos, junto à linha do trem, onde corríamos e saltávamos sem medo de errar o pulo. Enfim, naqueles verdes anos, era tudo festa.
Mas o paraíso não se limitava ao Frigorífico. Nosso avô tinha duas granjas em sociedade com um amigo, o Sr. ORTMANN. Na mais próxima, criavam gado, plantavam eucalipto, tungue, noz pecã, algodão e faziam outros experimentos agrícolas. Na segunda, também havia cavalos e gado, mas o forte era o cultivo consorciado de trigo e soja. Lá o SÉRGIO aprendeu a banhar e vacinar o gado e as ovelhas, e a dirigir tratores e colheitadeiras. Aprendia rápido e fazia tudo facilmente, com naturalidade, deixando todos impressionados com a sua destreza.
No antigo ginásio, SÉRGIO passou um tempo interno em um colégio de Panambi - creio que o atual Colégio Evangélico - onde a colônia alemã era muito expressiva. Lá, entre os descendentes de alemães, refinou o seu caráter firme e começou a praticar esportes. Desenvolveu um senso de lealdade e justiça muito forte. Nos entreveros da piazada, colocava-se sempre em defesa dos mais fracos. Se necessário, após muita argumentação, não tinha receio de partir para as “vias de fato”. Espírito alegre, era popular entre os colegas que o chamavam de “chocolôda” (chocolate), com forte acento germânico, numa alusão à sua tez morena.
Nos esportes, jogava basquete e volibol muito bem e teve uma iniciação no atletismo, em Panambi. Participava ativamente dos jogos escolares em Santo Ângelo, inclusive em competições regionais, sempre com destaque. Quando fomos para Porto Alegre estudar no Colégio Militar, foi logo reconhecido como um atleta de grande potencial.
Mas foi na Academia Militar das Agulhas Negras-AMAN onde o “criôlo “SPARTA -- como o chamavam seus companheiros - encontrou o ambiente ideal para o desenvolvimento pleno do seu potencial esportivo. Em uma Instituição como o Exército Brasileiro, que valoriza os esportes, ele deslanchou de vez. Nas competições internas, fazia de tudo, e muito bem: natação, basquete, volibol, atletismo, pentatlo militar, tiro, enfim, tudo que era possível fazer. O Curso de Infantaria, que ele integrava, era conhecido nas competições como SPARTARIA. Era a SPARTARIA contra o resto. E a SPARTARIA sempre vencia no final, com uma grande contribuição do cadete SPARTA. Assim, já na Academia, o SPARTA tornou-se conhecido em todo o Exército e também nas outras Forças Armadas, como um atleta excepcional.
Concluído o curso e já como oficial, encarou outros desafios para o seu espírito inquieto: competiu pentatlo moderno – esgrima, natação, corrida, tiro e equitação –, acumulou recordes em várias modalidades esportivas e fez curso de paraquedismo. Foi instrutor da AMAN e da Escola de Educação Física do Exército. Como atleta completo e de alto rendimento, liderava pelo exemplo, tendo contribuído para a formação de várias turmas de cadetes e instrutores de educação física. Posteriormente, foi dirigente esportivo, responsável pela preparação de várias equipes de atletas para competições nacionais e internacionais, incluindo pentatlo e paraquedismo.
Assim, pelo extenso currículo e pela sua extraordinária aptidão esportiva, o coronel SPARTA é considerado o maior atleta que já passou pelas fileiras do Exército. Não há quem não conheça o nome SPARTA no Exército e não saiba o que ele representou para os esportes na Instituição.
Como oficial superior, fez o curso de estado-maior do Exército. Muito inteligente, cultura geral ampla e de redação fácil – era também advogado e administrador de empresas -, foi aprovado logo no primeiro (e difícil) concurso que fez para a Escola de Estado-Maior, sem dispor de muito tempo de preparação. Mais tarde, comandou o Batalhão de Polícia do Exército em Porto Alegre, sendo reconhecido pelos seus superiores e subordinados como um excelente comandante.
Como coronel, foi selecionado para chefiar a segurança do Presidente da República nos governos Itamar e FHC, destacando-se, mais uma vez, pelo preparo técnico, pela lealdade e segurança que inspirava. Anos depois, já na reserva, publicou um livro com as suas impressões da experiência vivida no centro do poder, com propostas lúcidas sobre como aperfeiçoar a estrutura do Estado brasileiro. Por tudo isso, vê-se que o SÉRGIO não foi só um atleta excepcional, o que já seria algo completamente fora do comum. Seu espectro de aptidões era muito mais amplo.
Certo dia, indo visitá-lo, estava trabalhando no roteiro de um filme. Em outro, estava finalizando um poema. Noutra ocasião, na praia em Capão, seu genro – que é diretor de cinema -, chegou com um convite inusitado: - “Seu SÉRGIO, estamos fazendo um filme e precisamos de um figurante para o papel de um general que vai comandar uma carga de cavalaria. O Sr. aceitaria ?” – “Mas claro, onde é a filmagem? “, respondeu prontamente o SÉRGIO. E lá se foram para o local da filmagem. Quando lá chegaram, entregaram-lhe a farda de general e um sabre. Ao ver aquilo, um gaudério do elenco resolveu brincar com ele e foi logo avisando: - “Olha tchê, cuidado para não tropeçar nessa arma”, ao que o SÉRGIO devolveu: - “ Não se preocupe, eu sei manejá-la! Já fui campeão sul-americano disso aí”, e finalizou a conversa com uma sonora gargalhada, bem ao seu estilo.
Esse era o Sérgio! De muitos matizes. Oficial destacado, uma lenda do desporto no Exército, autor de livros, poeta bissexto, alegre, agregador, simples, humano, leal, justo, um amigo e companheiro sem igual. Por onde passou, honrou Santo Ângelo e o Rio Grande, que podem se orgulhar desse filho admirável.
Como disse a florista, “Esse foi grande! “. É exatamente o que pensam os seus incontáveis amigos e admiradores: sem dúvida “Esse foi um grande homem!”
ENIO FETT DE MAGALHÃES, Rio de Janeiro, novembro de 2021
