Uma manhã outonal irrompeu na península missioneira. Era o tempo das folhas perdidas ao vento – a estação dos destinos errantes. O aguaceiro e o vendaval da noite anterior haviam acalmado o mar. O minuano enamorava-se com Iemanjá. A rainha apaixonara-se pela milonga andina.
O velho pescador, que cevava um mate repleto de ervas, observava o movimento das ondas. Alimentava todos os dias a alma com a seiva guarani. Em pouco tempo, o amadeirado ‘Mouro Negro’ enfrentaria a solidão do mar para repontar os misteriosos peixes.
Aprendera com o pai a arte de domar os desencantos e a fúria do mar, mas a verdade é que pouco sabia das profundezas dos amores mágicos. Nunca soube ao certo quando o mar missioneiro entrara na vida da família. No vilarejo, os antigos contavam que o bisavô fora um destemido tropeiro, um homem rude das coxilhas enfeitiçado pelas sereias.
Embora o céu estivesse límpido, o pescador desconfiava dos mundos onde a vista não alcançava, temia as reviravoltas da natureza, desencorajava-se diante das mudanças do coração. O vento triste, morno, perambulava, à deriva, pela praia de areias brancas.
A pele amorenada brilhava nas águas missioneiras, como se Guma, de Amado, estivesse navegando nos mares interioranos e gelados do sul. Fisgar a felicidade não era algo tão singelo. A linha de mão às vezes não dava conta da empreitada.
O braseiro não apareceu no horizonte naquele fim de tarde. A tempestade chegou assustadora vinda de outros mares. A canoa, que parecia um brinquedo de papel, não tardaria a naufragar na escuridão.
O pescador lutava contra o último desatino, não desejava morrer, logo agora que havia encontrado um amor para abraçar nas noites claras, nas noites com o “éle” de um luzidio enluarado.
Não houve tempo para súplicas divinas. O “Mouro Negro” despediu-se na imensidão azul. Ao soberano mar caberia a decisão sobre a vida e a morte do pescador.
E de nada adiantaria nadar, gritar ou lastimar. Apenas as agitadas águas missioneiras poderiam entregá-lo para a prenda de olhos brilhantes; talvez houvesse um gesto sobrenatural de piedade para que pudesse viver o derradeiro amor.
O mar serenou, engoliu a canoa, e devolveu o náufrago às areias coloradas. O esbaforido pescador acordou-se sobressaltado na madrugada: não havia praia ou mar, apenas a cantilena doce do rio Comandaí... e um esbelto sorriso missioneiro ao seu lado.